{"id":221,"date":"2021-01-19T19:52:27","date_gmt":"2021-01-19T19:52:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.josefortuna.com.br\/jf\/?page_id=221"},"modified":"2021-01-19T19:52:27","modified_gmt":"2021-01-19T19:52:27","slug":"ao-nosso-pai-jose-fortuna","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.josefortuna.com.br\/jf\/ao-nosso-pai-jose-fortuna\/","title":{"rendered":"AO NOSSO PAI JOS\u00c9 FORTUNA"},"content":{"rendered":"\n<p><em>( Iara e Marlene Fortuna )<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&#8230; Foi uma hist\u00f3ria de amor, exemplo e virtude. O pai: Jos\u00e9 Fortuna, as filhas: Iara e Marlene. E assim prossegue a saga&#8230; Observadoras viv\u00edamos, atentas, a seu processo de cria\u00e7\u00e3o. Mas como escrevia aquele homem! Uma cachoeira de id\u00e9ias plasmava-se em versos. Quanta inspira\u00e7\u00e3o! Tudo, tudo era motivo para o afloramento de sua inspira\u00e7\u00e3o: uma flor, uma estrela, a terra molhada, o mar, um presidi\u00e1rio, uma pedra, a saudade&#8230;<br>A obra liter\u00e1ria de nosso pai, seja completada de poemas, de prosa, de pe\u00e7as de teatro, serviu de exemplo maior para o desenvolvimento de nossa sensibilidade, de nossa veia art\u00edstica, de nossa personalidade esculpida com dignidade e car\u00e1ter.<br>Um dia, o farol vermelho parou nosso carro em frente a Penitenci\u00e1ria do Estado. Papai fixava seu olhar iluminado em um preso que acenava, das vidra\u00e7as quebradas da cela, um esquisito movimento de m\u00e3os! At\u00e9 parecia um desencantado tchau! Papai refletiu na hora e expressou para n\u00f3s seus pensamentos: mas que tchau \u00e9 este? Para quem? Para o tudo? Para o nada? Para os autom\u00f3veis? Para ele mesmo? Para Deus? Um apelo de s\u00faplica? Coincidentemente o prisioneiro acenava para um poeta que, sabendo ler para al\u00e9m das grades, pediu-nos um papel e uma caneta. Parou o carro e continuando a mirar o gesto, criou uma hist\u00f3ria sintetizada em versos e intitulada: O Ip\u00ea e o Prisioneiro. Do vulc\u00e3o imagin\u00e1rio de nosso pai, saiu a fatalidade de um homem que, apaixonado, assassinou a esposa por adult\u00e9rio. Da janela da cela avistou um jardineiro que plantou um ip\u00ea. Enquanto atr\u00e1s das grades ele sofria, mirava o ip\u00ea que crescia&#8230; A \u00e1rvore florida, era beijada, todos os dias, pela aurora do sol, pela chuva fresca, pelo vento manso e pelas estrelas, mas, contradizia-se com o detento sem jardins floridos, sem noites enluaradas e sem dias de aurora. Dialogava com o ip\u00ea, em um discurso qualificado de grandeza po\u00e9tica: \u201c&#8230; vejo em seu tronco cip\u00f3 parasita te abra\u00e7ando forte, enquanto te abra\u00e7a suga a tua seiva te levando a morte, assim foi comigo, ela me abra\u00e7ava depois me tra\u00eda, por isso a matei e agora s\u00f3 tenho sua companhia\u201d.<br>Esta homenagem foi escrita h\u00e1 quatro m\u00e3os. Mas, permito-me contar uma passagem de minha vida. H\u00e1 muitos anos, presenciei precocemente e com imensa nitidez, a dimens\u00e3o do poeta: eu havia me separado do primeiro amor, n\u00e3o conseguia sair da cama, tamanha a tristeza. Papai chegou pela manh\u00e3, bem cedinho e me perguntou: \u201c&#8230; e da\u00ed Marlene minha?\u201d, eu lhe respondi aos prantos: \u201c&#8230; Ah meu pai, que saudadona!&#8230;\u201d. Para mim, era a \u00fanica palavra que encontrei na hora e que podia expressar a extens\u00e3o de minha dor. Para ele, desta palavra, apenas uma palavra, surgiu imediata inspira\u00e7\u00e3o:<br>\u201cSaudadona, \u00e9 mais do que saudade, \u00e9 a grande dor que invade, o cora\u00e7\u00e3o da gente<br>Vem de longe, de um tempo esquecido, passado refletido, no espelho do presente<br>S\u00e3o ra\u00edzes, no ch\u00e3o dos desenganos, brotadas pelos anos, de um adeus para sempre<br>Ela chega, quietinha sem alarde, quando o sol da tarde, desmaia no poente<br>Saudadona, dor sentida, escondida, no meu peito<br>Saudadona, dor ingrata, porque me mata, desse jeito<br>Saudadona, \u00e9 uma saudade grande, \u00e9 nuvem que se expande, no c\u00e9u de meu destino Sombreando, o ch\u00e3o de minha m\u00e1goa, onde perdido vaga meu cora\u00e7\u00e3o menino<br>Saudadona, de regressar no tempo, e ver por um momento, meus rastros nas estradas<br>Ver florindo, da vida a primavera, onde a riqueza era, o ter de n\u00e3o ter nada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje ele \u00e9 estrela! Brilhante, podemos avist\u00e1-lo no alto!<br>Obrigada pai, por ter-nos legado um pouco de sua emo\u00e7\u00e3o art\u00edstica e ensinar-nos a estend\u00ea-la para a vida. Obrigada por ter-nos mostrado uma vis\u00e3o pluri-dimensional do humano \u2013 enxerg\u00e1-lo, para al\u00e9m de onde nossos fr\u00e1geis sentidos alcan\u00e7am. Obrigada nosso pai Jos\u00e9 Fortuna, por exemplos s\u00f3lidos de integridade, honestidade, humildade e, durante o tempo em que estivemos juntos, foi um encontro cheio de amor!<\/p>\n\n\n\n<p>Que saudadona pai!&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>IARA E MARLENE FORTUNA<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>( Iara e Marlene Fortuna ) &#8230; Foi uma hist\u00f3ria de amor, exemplo e virtude. O pai: Jos\u00e9 Fortuna, as filhas: Iara e Marlene. 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